domingo, 28 de maio de 2017

Vai

Eu escrevo melhor que falo.
Então, vai.
Em meio tanta técnica, positivismo e liquidez, eu espero que você ame, que você se apegue. Porque o apego completa. Amor preenche. Quando tudo tá ruim e vazio, você deslumbra e lembra que tem amor. Então tudo fica bem.
Você não é mais um garoto, não é não. Deve saber bem o que quer, mas te falta responsabilidade. Com os outros. “Onde não puder amar não te demores”. E não demore mais.
Tenho muita consciência das minhas fraquezas. Mas não são 5 dias, nem 5 semanas. São 5 meses. 5 meses que eu dediquei a você desde o primeiro dia. Desculpe, desculpe se eu não compartilhe do seu esquizofrênico carpe diem. Eu quero poder pegar, apalpar, me sentir segura.
A gente se dá bem, bem até demais. Eu calei as minhas angústias - até agora. Percebi nesse final de semana que eu, pra você, sou só sexo. Me lembro da segunda semana que estávamos juntos, eu fui a RJ fazer etapa do concurso. Eu senti sua falta. Eu te mandei uma mensagem. Eu achei que seria mais divertido com você.
Depois daquela mensagem dizendo “não estou emocionalmente pronto para um relacionamento” eu devia ter pulado fora na hora. Na hora. Não sei o que me impediu. Talvez pela desfaçatez com a qual vc disse tudo. Talvez pq eu estivesse aplicando prova. Talvez pela certeza doída de que só não assume relacionamento quem não gosta. Porque quando gosta, a gente tem, ao menos, medo de perder a pessoa. Medo de não ver mais.
Eu tive medo de te perder desde a primeira vez que nos despedimos. E tive medo de te perder cada vez que nos despedimos. Um inferno. Porque, na verdade, em que momento mesmo eu tive de fato você comigo? Saudade? saudade você tem/tinha do meu corpo. Não é saudade de mim. Não é saudade de mim.
Você não tem medo que eu vá embora.
Você tem ideia de como eu me sinto? Eu acho que não não. O carinho é unilateral. Eu não fui mais que um passatempo nos finais de semana que você nada tinha de mais satisfatório pra fazer.
Não faça mais isso. Aja com responsabilidade. A máxima do pequeno príncipe vale sempre. 
Mas de nada adianta escrever e escrever e dizer. São me dói, pq eu não despertei em vc o gostar. Não despertei... 

"Já não se morre de velhice / nem de acidente nem de doença, / mas, Senhor, só de indiferença"
(Cecília Meireles)

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Não sou eu, é meu eu lírico

Na liquidez das coisas, das horas e das interações, me acostumei a me relacionar como todo mundo. Um encontro casual ou marcado. O beijo, o algo mais. Às vezes rola, na maioria das vezes não, mas é assim.
Não existe mais o encantar-se com a presença contínua da pessoa em sua vida. Construir uma relação aos poucos e ir gostando mais e mais. Conhecer para gostar e não gostar para conhecer.
Enquanto estive em Portugal, passei por um processo estranho. Conheci um rapaz em outubro, passamos o carnaval juntos e só fomos nos beijar duas semanas depois. E depois que retornei, ainda abreviamos por dois anos o ponto final. Burrice pós-moderna. Mas foi uma experiência diferente das que eu vivo desde que deixei o noivo, desde que me libertei do Nosferatu. Duas pessoas, mas a mesma época, you know.
Tenho tido uma experiência solitária de encantamento.
Subconsciente me avisando, sonhos fraternos, pelo menos uma vez ao mês me fizeram notar o que eu não percebia. E num dia besta, parada próxima ao relógio de ponto com um copo de chá fervendo na mão, me percebi demorando o olhar. E gostando do que via. Quando nos percebemos, fiz uma brincadeira tosca e voltei aos meus afazeres que não seriam mais naturais, não naquele dia da semana.
Passei a perceber que estar perto era bom, que ouvir a voz era bom.  E a festa, ah a festa: foi festa em mim cada pegada fortuita no braço pra falar ao ouvido - música alta! - cada aproximação. Bem, eu sei. Proximidade etílica. Afinal, nada se consumou ali, mas se confirmou aqui, apesar da despedida fria e da frustração que dura até agora.
São mais de 30. Diante disso aí, eu, sem ação. Meu modus operandi é tão bobo que não é. Explícito aqui em mais um texto pra ninguém na esperança de que o alguém leia. E bem, sabemos, essas coisas não acontecem.
E não acontecendo eu vou. Não sou uma mulher inerte, mas tenho calado até os meus silêncios. E como Sílvia, tenho pago um preço alto por eles. Não espero, seria besta. Coisas boas assim, a realização do bem-me-quer não acontecem, ou pelo menos não andam acontecendo pra mim.
Termino com a Clarice, que fala sempre tão bem por mim nas linhas finais de meu livro predileto: o que escrevo continua e estou enfeitiçada.

domingo, 29 de maio de 2016

Se eu não ficar



Se eu não ficar, que não pensem que eu não os amo. Talvez eu não consiga permanecer justamente porque não dou conta de preserva-los de mim mesma. 
Se eu não ficar, não por egoísmo. É por esgotamento. É uma canseira sem fim que me deixa deitada desde o momento em que acordo. 
Se eu não ficar, não me demonizem. Não saiam por ai dizendo que as almas que não se ajustam vagam por aí. Eu acredito, sinceramente que quem não consegue vai mesmo pra um lugar muito melhor, onde haja reconforto, segurança e amor, muito amor. 
Se eu não ficar, saibam que eu fiz tudo - tudo com muito amor. Aos meus pais, aos meus cachorros, aos meus alunos que são a síntese da minha vida e aos meus amigos.
Eu amei imensuravelmente todos, todos. E tentei colocar esse amor em cada ato e cada palavra. 
Eu transbordo. Quem me conhece sabe, eu transbordo. Mas à bordo desse cansaço, desse mal-me-quer, eu cedo. 
Se eu não ficar lembrem de mim como alguém que de raso nada tinha, e talvez esse fosse meu pecado. Apedrejada por mim mesma por seixos intensos e internos, eu cedo. Eu cedo. 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Para Georgia 
Sabe, filha, hoje é um dia triste. Talvez você nunca leia essa carta, mas são tempos sombrios. Nossa democracia foi pro ralo, os direitos constitucionais estão sendo ignorados e mais uma vez o mandonismo impera. Eu jamais imaginaria, na minha mais leviana insanidade, que você presenciaria uma realidade assim.
Não é fácil ser mulher, Georgia. Hoje foi noticiado o estupro coletivo de uma jovem de 16 anos. Muitos comentários culpavam a vítima. E então eu penso na responsabilidade e na desgraça de ser mulher numa sociedade como a nossa. É uma dor constante. E acredite: se você for, como eu, sua tia e sua avó tanto desejamos, independente e dona de si e dos seus sonhos, o mundo não vai te perdoar.
Você vai ser culpada por querer ser livre. Como foi sua bisavó e como, de certa forma, eu sempre fui. De não se limitar a saber que existe: você vai querer ir tocar. E sentir loucamente, filha, cada emoção. Dançar por seis horas seguidas, se engajar pelos seus ideais de forma apaixonada. Vai ser culpada por isso também. Ah, filha, se você estiver carente e quiser atenção, ou simplesmente quiser saber qual o status do relacionamento com aquele cara com quem vc saiu algumas vezes, você será novamente rotulada como grudenta. Obsessiva. Mas saiba: é seu direito saber onde está, ninguém gosta de instabilidade.
Sua bisavó Dora ajudou a lutar pelo fim da ditadura, Georgia. E sua avó Iza criou sua tia e eu como mulheres donas de nossos destinos e de nossos corpos. Soberanas de nossa existência. Pois é, querida, nossa linhagem é de mulheres fortes. Mas o preço é tão alto... É uma dor quase irremediável. Escutei tanto: viajada, independente, doutora? Filho, homem pra quê? É que os seres humanos tão reificados não entendem que realização não tem preço, e você saberá disso com certeza. Seu próprio nome faz referência a isso. Vem de uma música onde Ray Charles diz que por mais que ele tivesse inúmeras possibilidades, só em Georgia que ele se encontrava, era só lá que a vida fazia sentido. Pra mim, em relação a você, isso faz muito sentido.
Não tenha medo filha. Nós nunca tivemos. São tempos difíceis, mas não imutáveis. Resistimos para isso, para fazer acontecer a mudança.
Quando eu era pequena, escrevi em uma atividade no livro didático: quero ser escritora. 
Tudo pra mim virava poesia. Eu lembro até hoje do dia em que escrevi um poema sobre o formato das nuvens, que encantou a professora da 5ª série. Fui criada e aprendi a dar a maior importância para as pessoas, para as plantas e pros bichos. Exercito isso diariamente e lá se vão 33 anos. 
Não fui criada em uma atmosfera de fadas e princesas. Minha avó execrava a Barbie. Não que eu fosse uma criança chata a la Mafalda, mas contos de fada não me cativavam pelo glamour, talvez pelo amparo que no fim das contas, a princesa tinha. Tive pais e irmã continentes. Até hoje. Amparada como uma princesa Disney.
Então eu me pergunto, antes de deletar definitivamente essa conta dessa rede social que eu não mais suporto, o que é que foi que deu errado?
Eu olho as fotos da faculdade e penso: nossa, eu queria ser essa garota! E eu não fui quando era.
Eu não aguento ficar acordada num mundo em que as pessoa descartam. Eu não aguento ficar acordada em uma realidade em que as pessoas não se importam umas com as outras. Fico dias sem ver minha melhor amiga que mora na rua de cima de casa. Não vejo meu melhor amigo há meses e apesar das redes sociais, não temos nos falado.
Mudam-se os interesses, as pessoas se dispersam, vai-se um pouco de mim e um pouco de você. Nos tornamos menos. E cada vez menos.
Eu sinto muito por não ter ventosinhas que segurem as pessoas ou as deixe querendo estar perto de mim. Houve um tempo que isso acontecia, aliás, ocorre. O gozo acaba, acabam-se também a ternura e a vontade de estar comigo. Pedaço de carne, mulher independente, solteira. Pedaço de carne maquiado bem vestido e cheiroso que serve por algumas horas. Depois, quem sabe?
Eu estou absolutamente cansada. Eu não suporto estar acordada e vivenciar tudo isso. Eu não consigo lidar com a indiferença de quem fez parte da minha vida. O que mudou, onde eu errei? Onde eu errei, eu quero saber, e eu eu erro muito.
Pedaço de carne, mulher, independente, solteira e cansada. Estou farta de redes sociais e das redes coercivas da vida. E me despeço, antes que digam que sou histérica. Antes fosse e não tivesse tanta, tanta consciência de tudo isso. Que bom seria! Que bom seria nada saber. Não querer escrever e saber descartar.
Me deixem, me deixem dormir. Me poupem da falta de interesse de quem estava a pouco tão próximo em saber como estou. Me deixem dormir. Adeus.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Eu tenho um plano perfeito.
Vou pegar receitas e roubar outros tantos remédios que terminam em pan
Misturar todos e tomar a seco na praça da mãe preta, em frente à igreja que eu ia me casar.
Pronto. Fim de um ciclo desgraçadamente triste na vida de uma pessoa.
E vc, desgraçando Mentirosão, fantasioso e sem função na vida e que eu sei que lê esse blog, leve consigo a culpa eterna. Nem a mamãe e nem o papai vão conseguir livrar você disso. Já pediu hoje pra mãe comprar a remédio pra deixar de ser brocha? A mamãe faz tudo!
Esse é o mais profundo desejo. Mentirosao brocha de uma figa.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

O período da noite é sem dúvida o mais difícil.  É quando vem a tona a ausência de aconchego, a falha de um querer bem que se foi ou nunca existiu. São melhores os casos em que eles jamais fizeram parte de nossa vida. Não há do que ter saudade. Perfeição dos mundos.
 Hoje comprei uma passagem de retorno à Lisboa, me emocionei e me contentei tanto. E agora me vem só tristeza. Não sou a mesma a voltar lá. Estou gorda, feia e estou velha. E em minhas fotos lisboetas estou cheia de viço, vida. E alegria. Tenho impressão de quem estava  em Lisboa não me era. Era algo além, algo que ficou pra trás sem ao menos ter existido.
Hoje eu sou uma guia de internação a ser utilizada. Eu sou alguém que tem as malas prontas a entrar em um mundo onde o sono proveria o conforto de não ser.  De não ser professora, mulher, e a mãe que nunca vou ser. Eu sou o desejo de não ser e me tiram o direito de dormir.
Me deixem dormir.

domingo, 17 de abril de 2016

Cada vez mais tenho a convicção de que minha necessidade diária por Espran 10mg se dá pela negação de mim mesma. 
Não que eu me sinta oprimida, pelo contrário: desde a mais tanta idade escutei em casa que seria apoiada em qualquer uma de minhas decisões, desde que eu não me prejudicasse voluntariamente e fosse feliz. 
E eu me considero uma pessoa feliz, sim. Fiz Ciências Sociais mesmo nãos sendo rica para bancar uma faculdade paralela e estou absolutamente satisfeita com a minha profissão, apesar das dores diárias e cansaço latente: a Sociologia é um esporte de combate. E eu sou guerreira. 
Hoje vi uma imagem das manifestações contra o impeachment no Rio de Janeiro e os dizeres: quando o morro descer e não for carnaval. 
E então, pensei que o que eu queria mesmo, era estar no morro, ajudar alfabetizar crianças no sertão, contemplar diariamente a diversidade social na Lapa e cair de dançar no final da noite. Talvez o que me falte seja mesmo sair do interior e atuar em um contexto mais amplo, amplo de mim mesmo. 
Em Lisboa, quando estava sozinha ou melancólica, eu descia do meu apartamento, que era central e ficava bem perto da zona do meretrício, muito próximo então da Avenida da Liberdade (localização das lojas de grife) e andava até a Alfama  (onde nasceu o fado!) ou Mouraria, que tem um histórico de ser um reduto popular. 
Eu sempre achei tão lindo esse nome: Mouraria. Remete justamente aos paria, de ontem e como sabemos, de hoje. E ali eu gostava de sentar no bar menos provável e ouvir as pessoas de mais de 60 anos contarem sobre seu cotidiano umas paras as outras. Talvez eu sinta essa falta de Lisboa por ter sido a experiência mais próxima de mim mesma que tive na vida.